Calango Neptuniano

sobre o assassinio sob o ceu de curios

Eu vou sorrir. Por falta de alternativa. Vou sorrir por esta manhã despertar atrasada e pela minha falta de esforço ao apoiar-me sobre a latrina onde te cuspo nem clara, nem viscosa. Meu sorriso é translúcido por conhecer o céu e mais um cento de curiós.

Te mato por meu indulto e te condeno por toda vida.

sobre o delicado

A beleza dela

carro 1980

riu e não sorriu

negou sem desmentir

sobre setenta e sete vezes minha cegueira

Olhar-te-ei setenta e sete vezes antes de traçar teus lábios sobre os meus sonhos. Pudicos, não tratam de lhe descrever a ofensa que seria tratar-lhe por tolas lembranças, sobre o vago do pensamento. Creio, contudo, que setenta e sete vezes será o bocado da suficiência.

O mundo, esparso, escorreu-me como cataratas que gravitam sobre um meu epicentro, núcleo, coronomagnetismo; e os jequitibás, bem florescem, para logo padecerem… a brisa… Se eu for gigante, que penduricalhem uma coroa de jequitibás e seus Outonos, todos sobre meu caixão!

Pois não há este fim assim correr.

A menos que…

setenta e sete vezes,

teus olhos sem cor de tinta,

tua boca em formato

profundamente confuso,

harmonizem minha cegueira.

sobre a pureza castrada

Minha filha; a garça morreu, a menina nasceu, o pinto também. A distância só tem preço. Tenho falta do tempo, do rio, de oxum, da sibipiruna, das saliências; tenho falta do tempo, de São Judas Tadeu, das bundas de gesso, dos tropeços e tenho falta do temor das pragas, dos tropeços e da minha inteiriça liberdade de morrer.

Castraram minha pureza.

Nada sangra mais.

sobre rumores

Morreu! E veja só, um enfeitador de cabaré no inferno. A eternidade é a ingênua ânsia porque vaporaram-se todas as agulhas da arena. Ai de mim!

Rumores.

sobre cheinhas

Tem onde pegar. Cheia de pluralidades. Boneca, fofolete.

Há o que pegar.

sobre reticientes asas de decencia

Zê vezes mil nadas de dormir. Zê vezes mil sopra a ventoinha, quenoutras épocas soprava não tons de Zê (mas tons de zumbido). Sopra pra pintar a noite rosada. Brilha daqui! Soprou e os galhos fatiaram um bocado de céu, postas vivas, pescas do frio.

Menina da esquina, te quero pois o céu nubla e não és minha.

Tens um pomar nos fundos de tua…

A decência voou

sobre o silhal docemente ardil

Toc, toc; quem é? É o lá fora batendo da janela. Bate, maldição. Bate, que cravo-te a agulha de minha zanga, eis vossas fazulas a se amarem sob sangue e interação. Vós, unidas, sois a fado de toda alma.

Dança, dança. Ciranda, tu, quem és? Majestade do fim! Oh, noites de amor e seus cabelos azorragues e análgicos. Iludente, finja-se detrás de vinte olhos cegos de minha face, escorra a língua pelo meu silhal docemente ardil.

Sei onde tu estás.

sobre a infancia da morte

Vem, vem - disse a criança. Vem, vem! - abafou as mãos aos ares. Vem que está a chegar! Venha! Nem tinha a si própria a inocência do próprio ver e do próprio olhar, sem parar de dizer venha, a morte de mãozinhas pequenas afanava o ar. Venha. Ela só quer amarrar teu sorriso ao rosto, feito paus de arapuca, trançados na cruz. Vem. Fui. Era noite e não me fui. Para lá de dez mil quadras de concreto, eu. Só havia de voltar. O dia nasceria sob a aurora trançada de cruzes.